O Brasil tenta há décadas desenvolver um modelo de educação de qualidade. Resolvi fazer minha parte e, com base em minha experiência de educador, sugerir algumas ações para que esse modelo saia do rascunho e se transforme em realidade.
Antes de tudo, é preciso resolver o antigo embate qualidade versus quantidade. Pensamos, com freqüência, em um ou em outro, isoladamente, quando deveríamos pensar – e debater – um e outro. Os dois fatores devem andar juntos, em parceria. Talvez a solução para a educação em nosso País passe por aí.
Como bem sabemos, o território brasileiro é extenso. Por consequência, a tarefa de estender a educação por toda a Nação é árdua. Árdua, sem dúvida, mas está longe de ser uma missão impossível. Em primeiro lugar, são necessários investimentos. Mas investimentos de verdade. A “quantidade”, resultado do amplo alcance da educação, daria base para a “qualidade”, que avançaria progressivamente. Seria essa base, portanto, que propiciaria o desenvolvimento do ensino.
O segundo passo em busca de uma educação simultaneamente democrática e de qualidade é garantir que nossos professores estejam bem preparados. Novamente, investimentos são imprescindíveis. A formação e a qualificação dos docentes devem ser acompanhadas – e financiadas – de perto. Afinal, constituem requisito para o ensino de boa qualidade. Avaliações de desempenho periódicas podem ser úteis, na medida em que servem de instrumento de análise.
Acima de tudo, os profissionais da educação precisam ser devidamente valorizados. Os educadores são essenciais para a formação de todos os cidadãos brasileiros. Deveriam, portanto, receber as melhores remunerações do serviço público e contar com planos de carreira dignos. Além disso, é imprescindível que lhes seja oferecido tempo suficiente para o planejamento das aulas e amparo para o desenvolvimento de pesquisas. A educação só teria a ganhar se fossem aplicados investimentos a fim de que os professores se dedicassem exclusivamente ao mister que é sua profissão.
Contudo, não basta capacitar e estimular o profissional que trabalha a educação em sala de aula. Outros fatores, também relevantes, têm de ser considerados. O ambiente de ensino é um deles. Tudo deve colaborar para o desenvolvimento intelectual dos estudantes. Nesse sentido, o Governo deveria prover boa infraestrutura, recursos materiais e tecnológicos, alimentação e, obviamente, segurança patrimonial e física.
Também é de importância inestimável a participação ativa dos pais na educação dos filhos. Não me refiro, aqui, à educação em sentido amplo, que os pais evidentemente ajudam a moldar. Refiro-me à educação formal, oferecida pela escola. Dessa, nem todos os pais participam. Alegam falta de tempo, no mais das vezes. Isso não pode continuar a ocorrer. Nesse sentido, seriam úteis políticas públicas de incentivo e de orientação às famílias de nossos estudantes.
As soluções viáveis não param por aí. Seria interessante, por exemplo, que a metodologia de ensino fosse adaptada à realidade dos alunos, em consonância com a cultura local. Tal como propôs o famoso psicólogo Jean Piaget, a forma como o aluno pensa deveria ser levada em conta e era necessário que seu desenvolvimento fosse acompanhado passo a passo. Em outras palavras, a escola precisaria identificar o que o educando sabe e o que ele ainda precisa saber.
A escola em tempo integral, desde que baseada em bons projetos de educação – e não vista como apenas um local para o aluno passar o dia –, certamente contribuiria para a formação completa de nossas crianças. Com carga horária maior, além de cursar as disciplinas tradicionais, os alunos seriam beneficiados com tarefas que desenvolvessem seu espírito artístico e criativo. Também haveria tempo de sobra para a prática de esportes e de atividades de recreação que estimulassem a interação das crianças, promovendo nelas a socialização. Assim, nessa troca entre sujeitos, os futuros cidadãos brasileiros internalizariam conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permitiria a constituição de conhecimentos e da própria consciência.
Por fim, não se pode ignorar o importante papel da comunidade na melhoria das escolas. O voluntariado é capaz de fazer toda a diferença. Na luta em prol da educação democrática e de qualidade, todos nós estamos envolvidos. Não servimos apenas para criticar e condenar, mas também podemos – e devemos – sugerir soluções, criar, ajudar. Enfim, colocar a mão na massa. No mais, temos de pensar – e agir – unindo quantidade e qualidade. Essas duas faces compõem, sim, uma única moeda.
J. W. Granjeiro
Professor há 22 anos, trabalhou na Fundação Educacional há 13, foi servidor público há 17, instruiu e deu aulas nas principais escolas dos órgãos públicos e atua no ramo empresarial de escolas preparatórias há 20 anos. Autor de 20 livros para concursos públicos.