Os concurseiros e a "Síndrome do Urso Polar"

  

Nas habituais visitas de alunos que recebo em minha sala, ouço relatos dos mais variados tipos e me sinto obrigado a ajudar e a confortar esses concurseiros com uma palavra de motivação da experiência de um ex concurseiro. Há pouco tempo atendi uma estudante muito dedicada. Atleta e professora, ela visava à aprovação em concurso extremamente difícil – o do Senado Federal.

A aluna veio compartilhar a preocupação em, por falta de tempo, ter de abdicar da estética e com isso, comprometer seu relacionamento afetivo e a auto-estima. Fiquei com esse relato em mente, perguntando-me quantas concurseiras deviam estar em situação idêntica à daquela jovem. Como é difícil, para a mulher, abdicar dos cabelos com a raiz sempre retocada, das visitas semanais à manicure, do bronzeado perfeito, de toda a estética que a sociedade lhe impõe.

Outro dia ouvi de uma aluna a expressão “Síndrome do Urso Polar”, que, segundo ela, acomete as concurseiras. Por causa dessa “síndrome”, as mulheres perdem o tom dourado da pele, engordam e ficam peludas, tão logo começam a estudar para concurso. Certamente é difícil ser concurseiro, não importa o sexo, mas acredito que as cobranças envolvidas repercutem de forma diversa em homens e em mulheres. Em geral, as moças parecem reagir à pressão dos estudos com mais ansiedade, compensando na comida, especialmente nos doces. Mas, a despeito do resultado estético insatisfatório, não há anormalidade nenhuma no fato de ter uns quilinhos a mais. Se o tempo para os estudos é curto, a prioridade deve ser passar.

Apesar de a boa forma não ser o foco de quem se prepara para concurso público, considero muito importante que qualquer concurseiro reserve pelo menos trinta minutos do cronograma de estudos para a prática de alguma atividade física, de preferência caminhada ou corrida. A motivação principal para isso não deve ser estética, mas o condicionamento do corpo, a fim de que ele suporte bem muitas horas de estudo. Exercícios físicos também garantem melhor oxigenação do cérebro e a adequada liberação dos hormônios responsáveis pela sensação de bem-estar.

É importante compreender que o período de rigor nos estudos é uma fase por que passam todos aqueles que pretendam ter o governo como patrão. Como ocorre com tudo que se deseja muito na vida, a aprovação também requer renúncias. Não quero, com isso, dizer que se deve abdicar da beleza e da sensação de estar bonito, de bem com o próprio corpo. Entretanto, considerando que o objetivo é a aprovação no concurso, a beleza torna-se secundária.

A nossa existência é feita de escolhas, de prioridades, de metas. Conheço inúmeros ex-alunos – homens e mulheres – que engordaram durante o período de estudos, mas que hoje estão mais bonitos, felizes e realizados no cargo público. Afinal, como não se tornar muito mais bonito, quando se é concursado e bem remunerado, quando se tem estabilidade no emprego e se desfruta de férias e de recessos fartos? Gozando de tantos direitos e vantagens, é mais fácil cuidar da beleza exterior.

Por isso, tente enxergar o momento como uma fase. Modifique suas referências, pense na família, na segurança que você conquistará. Inverta os valores, reavalie o que realmente importa e valorize o que de fato tem valor. Foque nos resultados. Crie uma rotina de estudos e respeite-a. Quando você vir seu nome na lista dos nomeados, certamente não vai se lembrar de quantos quilos pesa, das pernas brancas, dos pelos, se está bonito ou feio. Só vai festejar a imensa alegria de ser um servidor público – uma “autoridade”. 

J. W. GRANJEIRO
Diretor-Presidente do Gran Cursos
http://twitter.com/JWGranjeiro