O concurseiro e o Bode (Expiatório)

  

Outro dia, encontrei um aluno no Parque da Cidade, quando eu fazia o aquecimento para um treino forte, em preparação para o DESAFIO DO PATETA, prova que ocorre na Disneilândia, no início do mês de janeiro, e que consiste em correr 5 quilômetros na sexta-feira, 21.100 metros (meia maratona) no sábado e 42.195 metros (uma maratona) no domingo. Por certo, esse será mais um grande desafio que testará  e desafiará minha disciplina e capacidade físico-psicológica. Mas não duvide: eu vencerei e publicarei nesta coluna o relato da aventura.

Voltando a nosso concurseiro, perguntei-lhe se ele estava estudando bastante e quais eram seus planos para ingressar no serviço público. Falou-me que estava desanimado porque ouvira de um colega histórias como a de que uma pessoa comprou a aprovação em determinado concurso e a de que a filha de um juiz, mesmo sem estudar nada, tinha passado em um dos últimos certames para um tribunal, onde já estava trabalhando, inclusive com cargo de direção. Percebi, então, que nosso personagem estava apenas se justificando. Justificando-se por não ter se dedicado com afinco.

Justificando-se porque, próximo à data da prova, já tinha a consciência de que reprovaria. Enfim, justificando-se, porque, antes que o condenassem – como se isso fosse possível –, precisava arranjar desculpas para sua fraqueza, sua indisciplina e sua desorganização.

Na mesma semana, recebi em minha sala três jovens que vinham agradecer aos professores e à direção do curso a ajuda em sua aprovação no último concurso da AGU. Estavam felizes e realizados na carreira que criteriosamente haviam escolhido. Aproveitei para perguntar-lhes qual fora a estratégia por eles adotada para garantir a aprovação de todos os três. Fiquei surpreso com a história que me contaram. Primeiro, eles haviam frequentado um curso do tipo pacote, ao mesmo tempo em que se matricularam em algumas plêiades, para reforçar as disciplinas de maior peso no concurso. Mas o mais surpreendente foi que, três semanas antes da prova, alugaram uma casa em Maceió, em frente a uma das mais belas praias da maravilhosa capital. Lá, passavam todo o tempo somente estudando, revisando e fazendo muitos exercícios. Contra todas as tentações da natureza. Achei aquilo um tanto masoquista, mas respeitei, porque a estratégia dera certo e os três esforçados candidatos haviam sido aprovados e classificados nos primeiros lugares.

Como eu atendo e oriento muitos alunos concurseiros, e embora não entenda nada de psicologia, já consegui identificar alguns tipos ou espécies de candidatos e os respectivos perfis. Há o idealista, que quer ser servidor para melhorar a administração pública, em prol do cidadão-cliente e de toda a humanidade. Há o necessitado, que não é vocacionado nem idealista, e carece do emprego e do salário para sobreviver e pagar as contas. Há o desmotivado: faltam-lhe força espiritual e energia, e sobram-lhe desculpas e justificativas. Há o motivado, sempre pronto para estudar e aprender – quanto maiores o desafio e a concorrência, mais motivação ele tem para os estudos. Há o derrotista, ou negativista, que entra na “fila” já derrotado e reprovado, seguro de que não passará – “mas não custa nada tentar, quem sabe eu dou sorte”. Há, ainda, o arrogante, que “sabe tudo”: critica os professores, a estrutura da escola, o material didático e tudo o que aparece na frente; esse não passa, mas dá um trabalho danado para a organização do curso. E há o tipo ideal. É aquele que conhece as dificuldades e as regras do jogo, tem consciência de quanto precisa estudar para ser aprovado e classificado, reconhece as dificuldades de um concurso e não mede esforços e investimentos para alcançar seus objetivos, com a paciência chinesa e a disciplina de um maratonista.

E então, qual é o seu tipo?

J. W. GRANJEIRO
Diretor-Presidente do Gran Cursos
http://twitter.com/JWGranjeiro