Os jovens preferem o governo como patrão

 

Publicado: dia 10/01/2011

  

Já comentei em muitos dos meus artigos a preferência cada vez maior que os jovens têm demonstrado pelo ingresso em uma carreira no serviço público. Como se sabe, a carreira pública assegura direitos, vantagens e benefícios exclusivos por toda a vida. Trata-se de opção das mais vantajosas, tanto para o profissional, como para a família dele. Discordo, portanto, de quem defende o empreendedorismo como a melhor escolha possível e de quem estimula a construção da carreira na iniciativa privada.
 
As vantagens do serviço público atraem hoje, no Brasil, universo estimado em doze milhões de pessoas, que estudam regularmente para concursos. Outros milhares de profissionais trabalham na área, seja como professores, seja como funcionários de escolas especializadas. A atividade tem grande importância para a economia brasileira. Representa um mercado significativo que movimenta, anualmente, bilhões de dólares, gera milhares de empregos e contribui para os cofres públicos com milhões de reais em pagamento de tributos.
 
São inúmeras as razões que explicam esse fenômeno. Para começar, a busca pela estabilidade econômica é o fator primordial para quem opta por se tornar empregado do governo. Isso no empreendedorismo não existe, já que o risco faz parte do negócio. E as dificuldades para abrir uma empresa em nosso país complicam ainda mais as coisas, como mostrarei a seguir.
 
É claro que a crise financeira mundial tem levado as pessoas, em especial os jovens, a buscar a estabilidade econômico-financeira por meio do ingresso no serviço público. Pelo fato de o governo não exigir experiência e não discriminar nem pela aparência nem pelo gênero, três em cada cinco jovens almejam tê-lo como patrão. É bem verdade, também, que 10% das pessoas que ingressam na carreira pública buscam criar uma reserva financeira para exercer o lado empreendedor, montando o próprio negócio: escritório, consultório, empresa de consultoria, etc.
 
Contudo, sem querer desanimar essas pessoas, sou obrigado a alertá-las para as dificuldades que enfrentarão para obter sucesso na iniciativa privada. Segundo estudo desenvolvido pela U.S. Small Business Administration, agência do governo americano especializada no assunto, o Brasil está em 54º lugar no ranking de países mais favoráveis para abrir um negócio, posição muito atrás do Chile, o sul-americano mais bem-colocado, que está em 26º lugar. A Dinamarca ocupa a primeira posição, o Canadá a segunda e os Estados Unidos a terceira.
 
O estudo revela ainda que o Brasil não está muito longe do último colocado na pesquisa, Uganda, que ficou em 71º lugar. E mais: no nosso “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”, são necessários, em média, 120 dias para abrir uma empresa. Nos Estados Unidos, bastam seis dias; na Bélgica, quatro; em Cingapura, três; na Austrália, dois; e na campeã, Nova Zelândia, apenas um dia para um novo negócio começar a funcionar.  Apenas a título de curiosidade, pelo menos neste aspecto é bem melhor abrir um negócio no Brasil do que no Suriname, onde um empreendimento demora 694 dias para funcionar.
 
Mas abrir uma empresa não envolve apenas burocracia. A legislação tributária brasileira impõe, ainda, violenta carga de tributos sobre os empresários, que também têm altos custos para manter a contabilidade em dia, arcar com os encargos sociais e juros extorsivos dos empréstimos bancários e sobre os tributos devidos. Tudo isso desencoraja muitos talentos desejoso de ter o próprio negócio.

A carga tributária do Brasil é maior do que a de países como Japão, Estados Unidos, Suíça e Canadá. Segundo estudo da Receita Federal, com dados de países-membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico – OCDE, enquanto o peso dos impostos no bolso do cidadão chegou, em 2008, a 34,41% em terras tupiniquins – nível recorde –, no Japão ficou em 17,6%. A carga também foi menor, por exemplo, no México (20,4%), na Turquia (23,5%), nos Estados Unidos (26,9%), na Irlanda (28,3%), na Suíça (29,4%), no Canadá (32,2%) e na Espanha (33%).

Acima do Brasil, ainda na comparação entre os países da OCDE, ficam Reino Unido (35,7%), Alemanha (36,4%), Portugal (36,5%), Luxemburgo (38,3%), Hungria (40,1%), Noruega (42,1%), França (43,1%), Itália (43,2%), Bélgica (44,3%), Suécia (47,1%) e Dinamarca (48,3%), que tem o nível mais alto entre os países do grupo.

Diante de tudo isso, não há como negar que o serviço público, pela via do concurso – seja no Executivo, seja no Legislativo, seja no Judiciário –, é a melhor opção para o jovem que está entrando agora no mercado de trabalho ou que deseja transferir-se da iniciativa privada para o serviço do Estado. Além da já referida estabilidade, o servidor assegura por toda a vida um salário digno e pago em dia, sem redução nem mesmo na aposentadoria. Terá também uma carreira com possibilidades de ascensão funcional regulamentadas por lei, assistência à saúde permanente e extensível à família e outras vantagens que virão com o tempo de serviço. Além do mais, o salário estará sempre garantido, independentemente de eventuais crises econômicas mundiais, como a que vivemos recentemente.
 
Aos jovens que fizerem a opção pelo serviço público, desejo todo o sucesso. E feliz cargo novo!

 

 

J. W. GRANJEIRO
Diretor-Presidente do Gran Cursos
http://twitter.com/JWGranjeiro