Quando comparo o concurso público à maratona, sempre o faço tendo em vista similaridades existentes entre as dificuldades que se apresentam ao atleta e ao concurseiro e as qualidades exigidas para superá-las nas duas modalidades de competição. Mas hoje quero discutir uma questão diferente, embora também relacionada à competição, com aqueles que estão enfrentando a dura preparação para os concursos que vêm por aí: afinal, você, concurseiro que está lendo este artigo, se sente, nessa jornada, mais como um corredor de 100 metros rasos ou como um maratonista?
As diferenças são muito nítidas, e, claro, têm tudo a ver com a personalidade de cada um, ou seja, com características trazidas do berço e muitas vezes herdadas do pai ou da mãe – ou dos dois – e presentes em todas as ações da vida. Entre elas, obviamente, estão a dedicação aos estudos e a disciplina na preparação para concurso público. Se você é um corredor de 100 metros rasos nato e vai fazer a prova do TST no dia 17 de fevereiro, por exemplo, certamente está aflito para chegar logo o dia e não vê a hora de fazer a prova. Já se você tem temperamento de maratonista, quanto mais o dia do concurso demorar para chegar, melhor: você vai aproveitar todo o tempo disponível para estudar até o momento da prova.
A questão é a seguinte: quem leva vantagem em matéria de concurso público: o corredor de 100 metros rasos ou o maratonista? A minha resposta, baseada na própria experiência pessoal de maratonista que sou, é a segunda opção,. Correr 100 metros rasos significa explodir em 10 segundos ou menos toda a energia acumulada dentro de si, sem pensar em nada – nada mesmo –, a não ser em atingir a linha de chegada na frente dos outros corredores. O velocista atingirá o objetivo em curto espaço de tempo, sem nenhuma estratégia a não ser a máxima velocidade possível. Na prova de concurso público, esse atleta corresponde ao candidato que termina de responder às cem questões da prova em uma hora, enquanto os concorrentes ainda estão começando a pensar em como fazer a primeira parte dela – concentrados e focados.
Já o candidato-maratonista tem o comportamento oposto. E é ele que, ao final, deverá ter-se saído melhor, porque terá traçado uma estratégia aplicada desde o momento em que soou a campainha para dar início ao teste. É como o maratonista que precisa correr os 42.195 metros e tem mais de duas horas para desenvolver todo o seu potencial, dosando as energias, observando os adversários, alternando seu ritmo de acordo com as exigências do organismo e as necessidades do percurso. No concurso, ele agirá da mesma forma e dificilmente entregará a prova antes de soar o sinal de encerramento, mesmo que já tenha respondido todas as questões.
De acordo com a sabedoria popular, a pressa é inimiga da perfeição. E, em matéria de concurso público, essa pode ser considerada uma regra de ouro. Fazer prova de concurso no ritmo de um corredor de 100 metros rasos é suicídio na certa. Você vai esquecer preciosas lições aprendidas no decorrer de sua preparação, agirá por impulso, dará a resposta que primeiro vier à mente, e não aquela que exige raciocínio mais demorado. E pode ter certeza: isso não vai dar certo. Se você é um velocista na vida pessoal, na prova de concurso público terá de mudar seu ritmo para o do maratonista e fazer tudo de modo calculado, dosado, sem precipitação.
Lembre-se de Franck Caldeira na maratona do Pan, que foi um exemplo do que acabo de afirmar: fez uma corrida cerebral e acabou vencendo a prova. Ele passou boa parte do tempo no segundo pelotão, para poupar energias, e só quando sentiu que dava para arrancar até a primeira posição se lançou num sprint incontrolável. Daí até o final, foi só correr para o abraço, literalmente.
Assim, também, deve ser o concurseiro. É preciso saber lidar com a ansiedade para atingir o pódio, tal como faz o maratonista durante a prova mais longa do atletismo mundial. A prova dos 100 metros rasos é dominada pela emoção. Na maratona, predomina a razão. É por isso que a segunda é o melhor espelho para o candidato a concurso público que deseja a aprovação, assim como o atleta busca a vitória na pista de corrida.
O candidato-maratonista elabora um plano de treinamento e segue solitário e com perseverância. Conhece a teoria, as táticas e as estratégias de uma competição, e, acima de tudo, treina muito. É obediente e respeita as orientações transmitidas pelo professor-treinador. Usa material adequado. Faz trabalho de reforço. Consulta sites especializados. Assina revistas e periódicos que tratam do assunto. Conhece muito bem as regras do jogo e o percurso que vai trilhar para alcançar a meta previamente traçada. E, o mais importante, não desiste NUNCA.